INSTITUTO DE FONIATRIA E FONOAUDIOLOGIA
Centro de Prevenção da Dislexia Clínica da Fala, Voz e Linguagem Audiologia

Aproximadamente 20% das crianças em idade escolar, entre 3 e 12 anos, inteligentes e com exame neurológico normal, apresentam algum sinal sugerindo a existência de distúrbio da comunicação. Ou seja, em um grupo de 100 crianças nessa faixa de idade, há probabilidade de que 20 sofram com o problema. É uma proporção muito elevada, além de preocupante, tendo em vista o processo de alfabetização, que quando mal sucedido leva ao rótulo de dislexia.
O domínio da leitura e da escrita representa a última etapa de um longo processo de aprendizagem e desenvolvimento, que só acontece se todas as etapas anteriores de aquisição da comunicação estiverem muito bem consolidadas.
Enganam-se os que pensam que a leitura e a escrita acontecem só porque chegou a idade e/ou porque a criança está matriculada numa escola que tem um bom projeto pedagógico. Também estão enganados os que supõem que distúrbio da comunicação só existe quando a criança fala errado. Seria o mesmo que afirmar que só existe doença quando um paciente está com febre. Assim como muitas doenças ocorrem sem febre, em muitos casos (a maioria) os distúrbios da comunicação ocorrem sem problemas na fala (trocas e/ou omissões de sons).
São vários os sinais de distúrbios da comunicação, além das alterações da fala e da voz, que se manifestam nas etapas iniciais do desenvolvimento da criança, antes da exposição à leitura e à escrita. Entre os mais significativos podemos mencionar o tempo de atenção encurtado, o desligamento, a impressão de que a criança se esforça para entender ou não entende o que é falado. Todos esses sinais são acompanhados de inquietação. A dificuldade para o relato de fatos é um sinal freqüente. Os relatos são desorganizados, muitas vezes apresentados como se o ouvinte tivesse presenciado o acontecimento.
Outra manifestação freqüente é a inadaptação à rotina estabelecida, que leva à desorganização. Em algumas crianças é nítida a dificuldade relacionada com o conceito de tempo/espaço (amanhã, depois, ontem, longe, espere a sua vez etc.). Têm ainda dificuldade em estabelecer relações causa/efeito, o que complica o surgimento ou a qualidade da noção de perigo, já que esta pressupõe a capacidade de antecipar o resultado de determinada ação.
Com isso, a definição de "juízo de valor", que viabiliza a preferência pelas pessoas, por objetos, a compreensão das regras de jogos e etc. - base da sociabilidade - fica distorcida. São crianças que tendem para estabanadas, desajeitadas, com predisposição para quedas, como consequência da corrida desengonçada e da pouca afinidade para atividades físicas. Não é rara a ocorrência de enurese noturna ("xixi" na cama) e escape de urina, e/ou de fezes, diurna aos esforços físicos.
Os sinais acima descritos, isolados ou associados, e que repito, manifestam-se precocemente, estão estreitamente vinculados às complexas estruturas que garantem a comunicação em todas as suas formas, leitura e escrita inclusive.
Entretanto, para que se possa suspeitar da existência de distúrbio da comunicação é necessário, e fundamental, que o padrão da criança em questão esteja defasado das demais, quando se considera a idade, o nível sócio cultural e o grau de experiência e de oportunidades.
Detalhe importante: não basta procurar providenciar tratamento para cada um desses sinais, assim como, por exemplo, não basta dar antitérmico para quem tem febre sem combater a sua causa. Ou seja, é inútil "brigar" com a boca da criança porque fala errado ou suas histórias são mal contadas. Também é perda de tempo insistir em que a criança faça cópia e ditado porque troca letras. É inútil ainda fazer jogo de "prêmio e castigo" porque lê mal, porque gagueja, ou só medicar com calmantes, porque é agitada. São esses tipos de atuação, sem o resultado esperado, que levam a criança a uma peregrinação a consultórios de vários especialistas.
Em que pese a resposta correta e honesta que possam dar, ela fica restrita aos limites de cada especialidade, sem que a família (e a própria criança) sinta o conforto de uma situação equacionada. Não raro, a evolução não satisfatória torna os quadros clínicos de distúrbio da comunicação cada vez mais complicados e até confundidos com "bloqueio emocional".
O desalento, o cansaço e o descrédito nas intervenções com esse viés induzem os pais, sempre com a boa intenção de "resolverem" o problema, a partirem "violentamente" para a chantagem emocional com as crianças, ao lado de pressões descabidas, igualmente desastrosas porque levam à alienação e ao desajustamento.
É no âmbito da medicina foniátrica, que avalia, acompanha e, muitas vezes, interfere na maturação, na aprendizagem e no desenvolvimento do processo de comunicação em todas as suas formas e em todas as suas etapas, que suas falhas e distorções são melhor consideradas. Essa é a sua área específica de atuação, que contribui para a resolução mais rápida e eficiente desses distúrbios porque facilita o trabalho de profissionais de outras áreas, importante no tratamento desses casos (de acordo com a necessidade: fonoaudiólogo e/ou pedagogo e/ou psicólogo e/o terapeuta ocupacional, entre outros).
A procura dessa ajuda deve-se dar no momento em que os padrões de comunicação e de comportamento da criança, através dos sinais mencionados, chamem a atenção pela sua inadequação e, de preferência, antes que evoluam para quadros mais complexos.


 

Evaldo J. B. Rodrigues


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DISTÚRBIOS DA COMUNICAÇÃO PODEM COMPROMETER FUTURO DAS CRIANÇAS

Igualmente desastrosas são duas situações:
a providência certa na hora errada;
a providência errada na hora certa.

(Exemplos: Alfabetizar antes dos 6 anos de idade
                  Textos complexos apresentados na 1ª série/ 2º ano)