INSTITUTO DE FONIATRIA E FONOAUDIOLOGIA
Dr. Evaldo J. B. Rodrigues foniatria - otorrinolaringologia Fone:(19) 3234-9409

DISTÚRBIOS DA FALA

Igualmente desastrosas são duas situações:
a providência certa na hora errada;
a providência errada na hora certa.

A fala é o resultado da participação de vários órgãos com funções diferentes. Quando um deles é alterado, mesmo que os demais permaneçam íntegros, haverá comprometimento. Seus mecanismos de produção são poucos conhecidos pelos pais, inclusive por alguns profissionais que trabalham com a infância. De modo que quando se apresenta alterada, a fala torna-se alvo de práticas muitas vezes absurdas para se tentar corrigir o problema.

Para esclarecer melhor, vou usar como comparação o exemplo das medidas de temperatura entre dois indivíduos. Ambos estão com 38 graus de temperatura, portanto com febre, mas a febre dos dois pode ter sido causada por motivos diferentes, com implicações que exigem procedimentos também diferentes. Ou ocorrer o contrário: os dois podem apresentar temperaturas variadas, por um mesmo motivo. Assim como há casos de temperaturas elevadas devido a uma simples gripe, há casos de temperaturas pouco alteradas no decurso de doenças mais graves que a gripe. Com esse exemplo, quero argumentar que o importante não é a medida de temperatura, mas o fato da temperatura estar alterada. Nenhum pai deve levar o filho a um pronto-socorro e exigir que o plantonista se preocupe apenas em combater a febre, quando se sabe que a febre é apenas conseqüência.

Voltemos à fala...
Já disse acima que é resultado da participação de vários componentes. Do mesmo modo que no exemplo acima, também pode acontecer de duas crianças não conseguirem produzir o mesmo som por causas diferentes, assim como pode ocorrer de duas crianças não produzirem sons diferentes, embora pelo mesmo motivo. Há crianças que omitem ou trocam muitos sons da fala por motivo relativamente simples, da mesma forma que há outras que apresentam trocas discretas por motivos sérios. Ou seja como no exemplo das diferenças de temperatura, o importante não é o som ou os sons omitidos ou trocados, mas o fato de estarem ocorrendo. Significa que há "algo" de errado por trás e que não está funcionando bem um ou mais componentes do mecanismo de produção. Normalmente, os pais de criança com distúrbio da fala demoram muito para recorrer à ajuda de um especialista. Acham que a criança sabe falar certo, que fala errado só para irritar ou porque não capricha, porque tem preguiça, porque é mimada, porque quer fazer graça, chamar a atenção, etc. Não raro há quem recorra a "castigos" para que a criança "aprenda" a falar "certo". Isso porque sons produzidos isoladamente podem acontecer da maneira correta, para em seguida aparecerem distorcidos, ou omitidos, quando têm de ser produzidos na sequência em que devem aparacer na fala fluente. É mais ou menos o que acontece com quem está aprendendo a ler as notas musicais. Para quem nunca estudou música, em meia hora é possível aprender a nomeá-las isoladamente, mas será impossível identificá-las numa partitura. Uma coisa é o som isolado, outra, completamente diferente, são os sons produzidos em seqüência. Querer obrigar a criança a repetir os sons corretos apenas assusta e constrange, podendo complicar ainda mais o problema. Os distúrbios, por si só, já colocam a criança em situação difícil. Portanto, quanto mais pressionada, coagida a "aprender"a falar "certo", mais difícil torna-se o tratamento. O importante é que seja levada, quanto antes, a um quem conheça a origem do problema e indique os procedimentos corretos muitas vezes com medicamentos que fazem parte da medicina foniátrica, até porque os mecanismos que garantem a fala são os mesmos que mais tarde serão exigidos, de maneira muito mais intensa, nos processos de aquisição e de automatização da leitura e da escrita (alfabetização). Essa conduta também favorece a maior rapidez do tratamento fonoaudiológico, que só tem eficiência no momento de maior capacidade de interação da criança.

Dr. Evaldo J. B. Rodrigues