INSTITUTO DE FONIATRIA E FONOAUDIOLOGIA
Centro de Prevenção da Dislexia Clínica da Fala, Voz e Linguagem Audiologia

LINGUAGEM E SUAS DIFERENTES FORMAS DE MANIFESTAÇÃO

LINGUAGEM
A linguagem é o nome que se dá a qualquer meio sistemático de comunicar idéias ou sentimentos através dos signos. Signo é tudo aquilo que representa alguma coisa e, portanto, está sempre na dependência de quem o interprete. Essa correlação, em que se alternam o que é representado e o que se interpreta, também ocorre o tempo todo com a gente mesmo e rege todas as nossas relações. É a nossa "conversa interior". É a que sempre "nos diz" alguma coisa desde que acordamos. O que vamos vestir, o que é urgente, o que é importante, o que será feito primeiro, o momento oportuno de uma providência, os meios e a estratégia que serão utilizados para alcançar determinado objetivo. Encontra-se entremeada aos devaneios e associações de idéias desencadeados quando se avista uma pessoa, ou se ouve uma música, um ruído, uma notícia ou pelo próprio curso dessa conversa interior, que às vezes assume contornos paranóicos. Mesmo quando dormimos estamos nos dizendo alguma coisa por meio dos sonhos. Como nessa circunstância não existe tempo de atenção, só possível no estado de vigília, sofremos porque não podemos comandar nossa atividade motora, nem nossa vontade. Não raro acordamos assustados e a nossa conversa interior termina sinistra, sob a aflição causada pelas imagens desordenadas que afloram à consciência.
Desse modo, o tempo todo estamos a serviço desse jogo funcional simbólico chamado linguagem . É o que rege e define toda e qualquer atividade e/ou interação que todos têm de acordo com a necessidade, a oportunidade, o interesse e o juízo de valor (expectativa, crença, prazer, ambição) que cada um consegue definir a cada momento, com a qualidade que depende da eficiência da sua linguagem interior. E sempre impregnada pela emoção e pelos sentimentos que emergem com a intensidade e o viés que dependem do que, e como, para si mesmo, cada um contou do mundo, no decorrer do tempo.


FORMAS DE MANIFESTAÇÃO DA LINGUAGEM
1-DIGITALIZADA

A linguagem pode ser exteriorizada por meio de códigos previamente estabelecidos e que seja do conhecimento das partes que interagem. É a chamada comunicação digitalizada. É representada pela fala, escrita, alfabeto de sinais, método braile, código morse.

2 - COMUNICAÇÃO ANALÓGICA
A linguagem que se manifesta depende do contexto para ser interpretada, como as que se seguem:

2.1-PARALINGUÍSTICA
É a manifestação da linguagem que ocorre através da emissão de sons e ruídos, como um grito, um muxoxo, um resmungo, um raspar de garganta, um suspiro ou gemido que , dependendo do contexto e das suas características, podem ser interpretados como pânico, alegria, dor, aprovação, insatisfação, desprezo, prazer, alerta, muitas vezes com uma carga de significado muito maior do que a fala poderia expressar. O mesmo acontece com a entonação da voz, que deixa transparecer tristeza, alegria, segurança, transmite empatia, causa antipatia, expressa raiva, enfado, pieguice, dengo, submissão, arrogância, serenidade, timidez, cinismo.

2.2-FISIOGNOMÔNICA
Emerge de aspectos físicos: forte, fraco, doentio, vendendo saúde, franzino, com a barba por fazer, alto, magro, gordo, sujo, calvo, usando barba, e etc.. Cada um desses atributos, ao lado de tantos outros, levam a nossa conversa interior- baseada no juízo de valor de cada um - a inúmeras maneiras de moldar o sentimento que irá reger a interação e, como conseqüência, a atitude e o comportamento que daí se manifestam. Veja, por exemplo, o procedimento para a escolha dos personagens para a realização de uma novela, um filme ou uma propaganda. Sempre leva em conta aspectos físicos que denotem traços de caráter de cada um deles.

2.3- CINÉSICA
É a interpretação sugerida pela gesticulação e pela postura corporal. A maneira e o modo como se senta, se cruza as pernas, a intensidade e o vigor da gesticulação e dos movimentos corporais, os cacoetes de mexer as mãos, como o de passá-las nos cabelos, de esfregá-las, ou de tamborilar, e etc., podem expressar boa ou má educação, grau de ansiedade e de constrangimento, o desconforto ou, o estar à vontade, a segurança, a descontração, a auto confiança e outros detalhes indicados pelos gestos e posturas.

2.4- MÍMICA
A expressão facial e o olhar, com muita frequência, traem o que a pessoa está procurando comunicar pela fala, tal é a intensidade e a força expressivas que vêm do íntimo, muitas vezes involuntariamente.
Com o olhar pode-se acolher ou fulminar. Com a expressão facial e o olhar não há como esconder preocupação, tristeza, angústia, dor, desagrado, aflição, dúvida, pavor, reprovação ou, mesmo, a notícia de um fato agradável, a alegria de uma conquista, o sucesso de uma empreitada, o fato de estar se sentindo bem, a realização de um sonho, o estado latente de felicidade. Muito representativo também é o potencial de expressão através dos gestos, tão arraigados ao cotidiano que muitos têm seu significado conhecido regionalmente e até universalmente.

2.5-ARTEFACTUAL
Extremamente marcante é a comunicação que advém da vestimenta. Através dela se expressam os valores reverenciados em cada época e lugar. As características pessoais e, mesmo, as características culturais de um povo, evidenciam-se pela forma como se veste. As roupas refletem riqueza, pobreza, bom e o mau gosto, a atualização com as tendências do momento, a importância que se dá ao ambiente no qual se encontra, estar ou não adequado a um evento. Deixa transparecer nuances da personalidade, da educação, do comportamento e, muitas vezes, da profissão. É importante lembrar que cada um se veste da maneira que define como sendo a melhor para o momento, com os critérios estabelecidos pelo diálogo interior, levando em conta como supõe que será interpretado pelas pessoas que venham observá-lo.

2.6-OLFÁTICA
Mesmo não apresentando a sutileza funcional observada em outras espécies animais, o olfato desempenha papel fundamental no jogo simbólico, ou seja, na linguagem. O cheiro das pessoas, da sua roupa, do ambiente em que vive, em que trabalha, em que se diverte é tão expressivo de significado quanto o manifestado pela maneira como se vestem.
Talvez seja pelo olfato que o recém nascido mantem o vínculo mais forte com a mãe nos seus primeiros dias de vida. As estruturas anatômicas envolvidas nessa função são as que também registram as informações que através dos sentidos , ainda com funcionamento precário, são enviadas para o cérebro, e ali armazenadas, numa época em que ainda não existe linguagem, e que , portanto, não podem ser consideradas na conversa interior de forma consciente. São estruturas que também tem atuação significativa na exteriorização das emoções (rinencéfalo).

2.7-HÁPTICA
É o que se interpreta através do paladar, do tato e da sensibilidade somestésica. Pela característica da pele e pelo vigor que se percebe num simples aperto de mão, na pressão com que se segura um braço, tem-se informação suficiente para a conversa interior gerar juízo de valor para monitorar, em muitas circunstâncias, o tipo de tratamento a ser dispensado e a maneira de conduzir uma interação. Em todas as circunstâncias também é fortemente representativo o sabor das coisas na estimulação e no desenrolar da conversa interior, que gera a manifestação de emoções e sentimentos de toda natureza. Esse aspecto é tão significativo que para muitas situações do cotidiano são atribuídas características que são pertinentes ao paladar (amargo, azedo, doce, salgado)

2.8-PROXÊMICA
A intenção de se ficar próximo de uma pessoa, ou de um grupo que comanda um evento ou atividade, normalmente comunica apreço, aprovação, consideração, prestígio, da mesma maneira que a disposição de ficar afastado, o mais longe possível, significa exatamente o contrário. São freqüentes essas situações, principalmente na vida de celebridades do mundo esportivo, artístico e político.

2.9-CRONÊMICA
O atraso no cumprimento de horário para uma entrevista previamente agendada, ou , até, para um encontro menos formal, além do tempo que pode ser descontado e tolerado, inerente à característica da atividade do dono da agenda, é sinal de deselegância de desapreço e de falta de consideração. É motivo de inúmeros incidentes de natureza diplomática, política, comercial e entre pessoas. Igualmente significativo, levando a variada interpretação, é o chegar muito antes do horário combinado.

Assim sendo, independente da vontade, estamos sempre comunicando alguma coisa, o que equivale a dizer que estamos também o tempo todo sendo interpretados. Por nós mesmos e pelo mundo, uma vez que sempre estamos sendo mediados pelo outro, porque nos manifestamos e nos expomos das mais variadas formas.
Somos diferentes das demais espécies, em que o canto ou os ruídos emitidos, assim como os rituais de caça, de aproximação por ocasião do acasalamento, de delimitação de território e sua guarda, de proteção dos filhotes, são geneticamente programados para cada uma delas, e estão estritamente vinculados ao fisiológico (fugir do predador, caçar, procriar, cuidar da cria), na dependência de condições ambientais específicas (Habitat) e , em certos casos, do condicionamento na interação com o amestrador. Portanto, desprovidos de função simbólica, ou seja linguagem, que pressupõe capacidade de abstração, como será adiante considerado.

LEITURA E ESCRITA
Como já afirmei, a leitura e a escrita são manifestações da linguagem que dependem de um código previamente definido e do conhecimento de quem participa da interação. Vale repetir: são manifestações digitalizadas da linguagem
A leitura é a passagem das letras (grafemas) para sons, e a escrita é a passagem de sons para letras
(lembrando que existem idiomas que o mesmo som corresponde a mais de uma letra , ou a um conjunto delas). A sua aquisição ocorre em duas etapas. Numa primeira descobre-se que cada som corresponde a uma letra, e v. versa, e numa segunda etapa há necessidade que essa transposição seja feita automaticamente, ou seja, sem necessidade de monitoramento consciente. São aquisições que estão atreladas a muitos pré requisitos anatômicos e funcionais, inclusive do funcionamento das estruturas do sistema nervoso central encarregadas do trabalho de mixagem, no caso, de sons para letras, e v. versa. Isso porque sons e letras são detectados e processados através de sistemas sensoriais diferentes (auditivo x visual). Essa atividade de mixagem passa a ter eficiência funcional em torno dos 6 (seis) anos de idade e atinge o seu ápice a partir dos 12 (doze) anos. Desse modo, a aquisição e a automatização da leitura e da escrita estão na dependência de um cronograma biológico, que, mesmo na ausência de distúrbio que comprometa quaisquer das complicadas estruturas nelas envolvidas, são viabilizadas depois de decorridos muitos anos do nascimento.
É por essa razão que, ao conhecer a trajetória do desenvolvimento de cada componente do processo, seja possível detectar eventuais falhas de um deles e corrigi-las antes que se dê a alfabetização. Trata-se de uma providência extremamente importante, uma vez que o domínio da leitura e da escrita, colocado como condição imprescindível para o futuro de qualquer indivíduo, não seria (nem deveria ser) proposto para as crianças que nitidamente não apresentem íntegros um ou mais dos pré- requisitos que o viabilize.

Referências Bibliográficas/ Leituras Recomendadas:
Bearzoti, P.- Das Relações Topológicas e Euclidianas - trabalho em fase de publicação - email: bearzoti@bestway.com.br
Gesell, A., Amatruda,Y.C.(1962). Diagnostico del Desarrollo Normal y Anormal del Ninõ (2ed). Buenos Aires: Editorial Paidós.
Perdicaris, A. A. M.(1995). Comunicação Médica e Competência Interativa: Uma visão Semiótica; (Dissertação de Doutorado, PUC- S.P,1995).
Rodrigues, E. J. B. Síndrome: Enurese Noturna, Valgismo, Disfonia, Ortodontopatia. Rev. Br. Otorrinolaringologia 1977; 63 (3): 280-283.
Spitz, R. A.(1965). O Primeiro Ano de Vida (1ºed). São Paulo, SP: Martins Fontes.
Spitz, R.A. (1984). O Não e o Sim- a gênese da comunicação (2ªed).São Paulo,SP: Martins Fontes.

Evaldo J. B. Rodrigues

Igualmente desastrosas são duas situações:
a providência certa na hora errada;
a providência errada na hora certa.

(Exemplos: Alfabetizar antes dos 6 anos de idade. Textos complexos apresentados na 1ª série/ 2º ano)