INSTITUTO DE FONIATRIA E FONOAUDIOLOGIA
Centro de Prevenção da Dislexia Clínica da Fala, Voz e Linguagem Audiologia

Dislexia

A convivência com a criança que tem mau rendimento escolar é muito sofrida. Os próprios pais têm dificuldade de entender por que, embora inteligente e esperto, o filho possa ser tão oscilante em seu desempenho com a leitura e a escrita. São levados a acreditar que só a má vontade e a falta de interesse podem justificar a letra feia e irregular, difícil de ser decifrada. A leitura é uma lástima. É capaz de passar horas jogando vídeo-game, mas alega cansaço quando tem de ler, ou preparar alguma tarefa escolar. Costuma deixar para a última hora, faz tudo correndo. A interpretação de textos fica reduzida a duas ou três linhas, feitas com a aflição de quem não pode perder um minuto para brincar. Os pais resolvem apelar. Dizem que se vier mais uma reclamação da escola o castigo será para valer. Ameaçam não realizar o prometido passeio e não dar o presente que tanto quer. Mas as ameaças não funcionam. Ajudar a fazer as lições, ou estudar para as provas, os tira do sério. E não dá para não perder a paciência quando vão conferir a prova e lá está a péssima nota. "Mentiu" dizendo que foi bem. A impressão que se tem é que o assunto estudado ontem, teve que dar lugar para o que foi estudado hoje. Até para fazer contas, que sempre teve facilidade, está ficando complicado. Parece que tem preguiça de ler a questão. É uma criança desligada, não presta atenção. De tanto levar broncas relaxa de vez. Nem mais copia as tarefas de casa e com isso, fica na dependência de ter de se socorrer com os colegas. Os pais pressionam e alertam que sem escola não dá para que um dia venha "ser alguém" na vida. De início se assusta, melhora o desempenho por alguns dias, depois volta na "estaca zero". A situação acaba ficando traumática quando o assunto escola passa a ser tema preferido das reuniões de família. Se é vexatório para os pais, para a criança é ainda pior. Fica na defensiva com as inevitáveis comparações.
Este artigo tem por objetivo prestar alguns esclarecimentos, para evitar que casos similares ao que foi contado voltem a se repetir. Trata-se do exemplo de uma criança que apresenta Dislexia.
Dislexia é a palavra utilizada para definir um tipo de distúrbio de leitura e escrita que ocorre em crianças consideradas "normais". É caracterizada, na escrita, pelas trocas e omissões de letras, que são mal distribuídas no espaço, de tamanho irregular, com freqüência muito calcadas e que pioram com o decorrer da atividade gráfica.
A leitura tende a ser truncada, hesitante e com trocas de palavras, o que redunda em comprometimento importante no entendimento do texto. Ler e escrever nessas condições passa a ser sinônimo de martírio.
A criança rotulada como disléxica tem falhas nos mecanismos envolvidos na transposição dos sons para as letras (escrita) e das letras para sons (leitura). Essas falhas só se manifestam, e de maneira contudente, após os 7 anos, em idade escolar. Portanto, até que uma criança possa receber esse rótulo há um longo período de desenvolvimento a ser vencido. Desde o seu início, existem sinais que apontam a Dislexia, mas que infelizmente nem sempre são valorizados pelos pais, e nem pelos profissionais que trabalham com a infância. Alguns desses sinais: o atraso no surgimento da fala e a troca ou omissão sistemática de sons, a desorganização na elaboração de relatos, a desatenção e o desligamento, a maneira desorganizada da criança interagir, a irrequietude, o jeito estabanado, a dificuldade com palavras que envolvem conceitos de tempo/espaço (depois, ontem, dentro, dias da semana, meses etc.), o hábito de evitar atividades físicas e o cansaço fácil. Entretanto, mais importante que a presença de qualquer desses sinais, é o fato de serem encontrados.
Significa que as funções básicas que garantem o surgimento e o aperfeiçoamento da fala, da linguagem, do esquema corporal, da organização interior do espaço, do tempo de atenção, da lógica de pensamento e da capacidade de abstração apresentam de maneira isolada, ou em associação, falha(s) que tornarão inviáveis, anos mais tarde, a aquisição e automatização da leitura e da escrita, que são capacitações que exigem de todas essas funções básicas excelência no seu desempenho. Meu objetivo é alertar os pais e os profissionais que trabalham com a infância a respeito desses aspectos e da importância do diagnóstico precoce. Minha proposta é de popularizar as informações sobre os avanços da medicina foniátrica no diagnóstico e no tratamento, com sucesso, dessas distorções funcionais, que colocam crianças inteligentes e com bom potencial em verdadeiros "becos sem saída". Além de boas escolas, com boas propostas pedagógicas, a criança necessita de condições orgânicas e funcionais para adquirir e automatizar a leitura e a escrita, que representam a mais sofisticada das formas de comunicação humana.
A Dislexia pode ser evitada e, quando já instalada, pode vir a ser tratada com bons resultados.

 

Dislexia - Evaldo J. B. Rodrigues
Correio Popular (10/11/2000)