INSTITUTO DE FONIATRIA E FONOAUDIOLOGIA
Centro de Prevenção da Dislexia Clínica da Fala, Voz e Linguagem Audiologia

Publicada em 26/3/2006

Revista Metropole
A síndrome sutil

Maristela Tesseroli

Sintomas aparentemente sem correlação, como enurese noturna, rouquidão e atraso no desenvolvimento da fala podem ter uma única origem. O problema é de difícil diagnóstico, mas de tratamento simples.

Os sinais surgem devagar. Quase sempre, tão sutis quanto fragmentados, confundindo não apenas os pais, mas até mesmo os profissionais que trabalham com a infância.

A menina Raquel*, por exemplo, apresentava enurese noturna. Ou seja, enquanto a grande maioria de seus coleguinhas de classe já conseguia segurar o xixi muito bem durante o sono, ela continuava a molhar a cama com bastante freqüência, embora já tivessem sido excluídos pelos pais, por meio de exames, quaisquer problemas neurológicos, metabólicos, psicológicos e também das vias urinárias.

Já Ricardo* sentia dificuldades para pronunciar as palavras. Aos três anos, quando as crianças de sua idade já se faziam entender, o garotinho articulava mal os sons e, exceto os pais, poucos conseguiam decifrar as frases que ele pronunciava com voz alterada.

Aparentemente sem qualquer correlação, esses dois sinais clínicos podem, sim, estar associados. E, tanto no caso de Raquel quanto no de Ricardo, os sintomas apontaram para um mesmo tipo de disfunção: a flacidez muscular – também conhecida como hipotonia – associada à frouxidão de ligamentos.

“Quando ocorre essa disfunção, o resultado de toda a atividade muscular fica comprometido”, explica o otorrinolaringologista e foniatra Evaldo José Bizachi Rodrigues que, em um trabalho inédito, descreveu essa síndrome da infância, que ficou conhecida como Síndrome EValDO.

“Entretanto, como nem sempre a intensidade da flacidez é uniforme em todos os grupos musculares, o comprometimento funcional manifesta-se de maneiras diferentes. Daí a dificuldade em associar, sob uma única causa, sintomas tão distintos quanto o comprometimento da fala, a voz rouca, as dificuldades motoras, a enurese noturna ou os problemas posturais e ortodônticos”.

Especialmente importante para a fonoaudiologia e para a reabilitação oral, o estudo publicado pelo especialista abre perspectivas de tratamentos mais rápidos para vários distúrbios da fala, da voz e até para a correção das arcadas dentárias.

“O rendimento do trabalho de outros profissionais que estejam envolvidos no tratamento dessas crianças, como fonoaudiólogos, pedagogos, ortodontistas e até psicólogos, pode ser muito mais eficiente, trazendo resultados mais rápidos para a criança”, explica.

Relação entre os sintomas

Para estabelecer a correlação entre os vários sintomas aparentemente independentes, Evaldo Rodrigues coletou dados e informações clínicas durante quase duas décadas.

O médico explica que, quando iniciou seus estudos, pretendia apenas melhorar o mecanismo de produção de voz de crianças roucas – tecnicamente conhecido como disfonia.

Nessas pesquisas, ele descobriu que algumas substâncias, já amplamente empregadas em geriatria e medicina do esporte por participarem da atividade metabólica dos músculos e ligamentos, mostravam-se eficazes também no tratamento da disfonia, com melhora funcional nos casos de flacidez muscular e da frouxidão de ligamentos.

“No acompanhamento clínico, entretanto, passei a observar relatos dos pais sobre outras mudanças ligadas às atividades motoras”, relembra. “Então, durante 18 anos, acompanhei dezenas de casos e constatei, nas crianças sob tratamento, a diminuição ou desaparecimento da baba e do acúmulo de saliva nos cantos da boca, maior eficácia na mastigação de alimentos e maior eficiência da fala”.

As crianças apresentavam ainda melhora significativa, ou até mesmo interrupção, da enurese noturna, além de melhora no desempenho muscular geral, com diminuição do cansaço e das quedas freqüentes.

Desde então, o medicamento passou a ser ministrado a centenas de pacientes, sempre com resultados surpreendentes.

No caso de Raquel e Ricardo, a história não foi diferente. Poucos meses após o início do tratamento, os problemas de enurese noturna de Raquel e os distúrbios da fala detectados em Ricardo desapareceram por completo.

Hoje, a menina freqüenta uma escola bilíngüe, apresentando ótimo desempenho, e o garoto, já um adolescente, acaba de retornar da Finlândia, onde passou por um programa de intercâmbio.

“Crianças com os sintomas dessa síndrome da infância precisam de auxílio médico para evoluir de acordo com o bom potencial que geralmente apresentam. Mas, se os pais demoram a procurar ajuda, por não detectarem o problema, a disfunção provavelmente será descoberta na idade escolar quando, então, trará conseqüências mais sérias para a criança”.

Corrigindo as disfunções

O caso de Tiago* é um bom exemplo disso. Quando bebê, o garotinho apresentava algumas peculiaridades como a baba freqüente e a demora em engatinhar. Mais tarde, começou a ter dificuldades para controlar o xixi durante a noite. “Apesar desses sintomas, jamais pudemos imaginar que houvesse uma causa comum ligando tudo isso”, recorda-se a mãe. “Foi então que, já na escola, aos sete anos, a professora começou a notar que ele tinha dificuldade em copiar corretamente no caderno aquilo que ela escrevia na lousa. As trocas de fonemas eram constantes e isso atrapalhava muito seu progresso na escola”.

Começou assim a peregrinação da família por neurologistas, oftalmologistas, fonoaudiólogos e até psicólogos. Descartadas todas as possíveis causas físicas, neurológicas e psicológicas para o problema, a mãe, já desesperada com a falta de solução, foi encaminhada ao consultório do foniatra Evaldo Rodrigues que identificou a síndrome em Tiago. Em seis meses de tratamento, o garoto começou a apresentar melhora significativa, não apenas no rendimento escolar, mas também na enurese noturna.

“Todos os resultados positivos vieram, então, numa seqüência muito rápida. Ele já não se sentia mais envergonhado diante dos colegas por fazer xixi na cama, seu rendimento escolar melhorou muito e até as atividades físicas, das quais ele fugia sempre por se sentir cansado e inábil para realizá-las, foram retomadas. Com isso, ele emagreceu, integrou-se à turma de amigos e hoje, leva uma vida supersaudável e feliz”, comemora a mãe. “Mas o melhor de tudo foi a melhora significativa naquilo que nós considerávamos desorganização de meu filho. Antes, ele não conseguia priorizar tarefas tampouco estabelecer uma rotina de atividades. Aos poucos, essaa desorganização e a falta de noção espaço-temporal desapareceram”.

De fato, o aspecto mais importante no contexto clínico de hipotonia ou frouxidão dos ligamentos é a atividade motora que, sem precisão e desengonçada, compromete a exploração adequada e o domínio do espaço pela criança. “Isso redunda em comprometimento da organização interior do espaço, fundamental para a aquisição do conceito de tempo que, por sua vez, é a base para o desenvolvimento da capacidade de abstração e da linguagem assentada em tempos verbais”, explica o médico.

É por essa razão que as crianças com essa disfunção apresentam relatos desorganizados e, pela falta de referência espacial, mostram também um medo exagerado por não saberem se posicionar no espaço físico em que se encontram.

Essas crianças têm ainda dificuldade para aquisição de conceitos abstratos (como noção de quantidade, seqüência dos meses ou nomes das cores) e domínio de vocábulos, como “depois”, “amanhã” ou “espere sua vez”. “Assim, ao corrigir as disfunções que interferem nas atividades físicas, as crianças apresentam, por conseguinte, notável melhora no aproveitamento escolar”, resume o profissional.

* Os nomes foram trocados para garantir a privacidade das crianças

Fique atento

Sinais observados em crianças com hipotonia e/ou frouxidão dos ligamentos:

Fuga do grupo na idade em que as atividades físicas são as preferidas.

Enturmar-se com crianças menores como maneira de manter a auto-imagem.

Temperamento e humor do tipo “pavio curto” como comportamento reativo às pressões constantes em relação ao mau desempenho.

Fixação em atividades que não exijam força muscular e/ou resistência física.

Pavor às lições de casa, especialmente porque nem sempre dá tempo de copiá-las em classe.

Tendência a esconder e a mentir em relação aos deveres escolares.

Tendência a evitar programas que exijam pernoite com grupo de amigos, ainda que seja em sua própria casa por conta da enurese noturna.

Serviço

Instituto de Foniatria e Fonoaudiologia - R. Barata Ribeiro, 280, Vila Itapura, f: (19)3234-9409.

Horário das palestras: 19h30 às 20h30.

Vagas limitadas a 12 participantes por evento.

Observe bem

Na escola, crianças com a síndrome descrita por Evaldo Rodrigues costumam ter padrão gráfico peculiar que inclui:

Pressão exagerada do lápis sobre o papel.

Letras grandes que pioram com o decorrer da atividade gráfica.

Cansaço fácil para essa atividade com sudorese excessiva nas mãos.

Em casa, os pais devem ficar atentos aos seguintes sinais:

Dificuldade na mastigação de alimentos sólidos.

Comer com a boca aberta, em velocidade excessiva.

Respirar pela boca, mantendo-a sempre um pouco aberta.

Dificuldade no controle da salivação, provocando baba.

Atraso no surgimento da fala e dificuldade para articular sons que exijam maior movimentação da ponta da língua (‘r’, ‘l’ e ‘lhe’).

Projeção da língua para fora das arcadas dentárias na articulação do ‘t’ e do ‘d’.

Formação de bolhas de saliva durante a fala.

Esforço exagerado para produzir som.

Timbre de voz áspero.

Dificuldade em dosar o volume, prevalecendo a voz gritada.

Atropelamento da fala por falta de fôlego.

Substituição do engatinhar pelo arrastar-se pelo chão.

Cansaço físico fácil.

Corridas desengonçadas e quedas freqüentes.

Fuga de atividades que exijam esforço muscular.

Posição dos pés sugerindo pés chatos, com joelhos em X (valgismo).

Xixi na cama após a fase de controle vesical (enurese noturna).

Deformidade nas arcadas dentárias (ortodontopatia).

Escape de urina e fezes durante o dia, quando a criança faz força muscular ou dá risada com muita intensidade.

Inquietação freqüente.

 

 

A síndrome sutil - Evaldo J. B. Rodrigues
Revista Metropole (26/3/2006)