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DISTÚRBIOS DA COMUNICAÇÃO PODEM COMPROMETER FUTURO DAS CRIANÇAS

Evaldo José Bizachi Rodrigues

Aproximadamente 20% das crianças em idade escolar, entre 3 e 12 anos, inteligentes e com exame neurológico normal, apresentam algum sinal sugerindo a existência de distúrbio da comunicação. Ou seja, em um grupo de 100 crianças nessa faixa de idade, há probabilidade de que 20 sofram com o problema. É uma proporção muito elevada, além de preocupante, tendo em vista o processo de alfabetização que, quando mal sucedido, é rotulado de dislexia.

O domínio da leitura e da escrita representa a última etapa de um longo processo de aprendizagem e desenvolvimento, que só se completará se todas as etapas anteriores de aquisição da comunicação estiverem muito bem consolidadas.

Enganam-se os que pensam que a leitura e a escrita acontecem naturalmente só porque chegou a idade, ou porque a criança está matriculada numa escola que tem um bom projeto pedagógico. Também estão enganados os que supõem que um distúrbio da comunicação só existe quando a criança fala errado. Seria o mesmo que afirmar que só existe doença quando um paciente está com febre. Assim como muitas doenças ocorrem sem febre, na maioria dos casos os distúrbios da comunicação ocorrem sem problemas na fala – a troca ou omissão de sons.

São vários os sinais de distúrbios da comunicação, além das alterações da fala e da voz, que se manifestam nas etapas iniciais do desenvolvimento da criança, antes da exposição à leitura e à escrita. Entre os mais significativos podemos mencionar o tempo de atenção encurtado, o desligamento, a impressão de que a criança se esforça muito para entender ou não entende o que é falado. Todos esses sinais são acompanhados de inquietação (TDAH). A dificuldade para o relato de fatos é um sinal frequente. Os relatos são desorganizados, muitas vezes apresentados como se o ouvinte tivesse presenciado o acontecimento.

Outra manifestação frequente é a falta de adaptação à rotina estabelecida, que leva à desorganização. Em algumas crianças é nítida a dificuldade relacionada com o conceito de tempo/espaço – amanhã, depois, ontem, longe, espere a sua vez, etc. Têm ainda dificuldade em estabelecer relações de causa/efeito, o que complica o surgimento ou a qualidade da noção de perigo, já que esta pressupõe a capacidade de antecipar o resultado de determinada ação.

Com isso, a noção de “juízo de valor”, que viabiliza a preferência por pessoas e por objetos, a compreensão das regras de jogos, etc. – base da sociabilidade – fica distorcida. São crianças que tendem a ser estabanadas e desajeitadas; com predisposição para quedas, como consequência da corrida desengonçada e da pouca afinidade para atividades físicas. Não é rara a ocorrência de enurese noturna – xixi na cama – e escape de urina, ou também de fezes, quando há esforços físicos no decorrer do dia.

Os sinais acima descritos, isolados ou associados, e que repito, manifestam-se precocemente, estão estreitamente vinculados às complexas estruturas que garantem a comunicação em todas as suas formas, da leitura e da escrita inclusive.

Entretanto, para que se possa suspeitar da existência de distúrbio da comunicação é necessário, e fundamental, que o padrão da criança em questão esteja defasado das demais, quando se considera a idade, o nível sociocultural e o grau de experiência e de oportunidades.

Detalhe importante: não basta providenciar tratamento para cada um desses sinais, assim como, por exemplo, não basta dar antitérmico para quem tem febre, sem combater a sua causa. Ou seja, é inútil “brigar com a boca da criança” porque fala errado ou porque suas histórias são mal contadas. Também é perda de tempo insistir em que a criança faça cópia e ditado porque troca letras. É inútil ainda fazer jogo de “prêmio e castigo” porque lê mal, porque gagueja, ou só medicar com calmantes, porque é agitada. São esses tipos de ação, sem o resultado esperado, que levam a criança a uma peregrinação a consultórios de vários especialistas.

Em que pese a resposta correta e honesta que possam dar, ela fica restrita aos limites de cada especialidade, sem que a família – e a própria criança – sintam o conforto de uma situação equacionada. Não raro, a evolução não satisfatória torna os quadros clínicos de distúrbio da comunicação cada vez mais complicados e até confundidos com “bloqueio emocional”.

O desalento, o cansaço e o descrédito nas intervenções com esse viés induzem os pais, sempre com a boa intenção de “resolverem” o problema, a partirem para a chantagem emocional com as crianças, ao lado de pressões descabidas, igualmente desastrosas, porque levam à alienação e ao desajustamento.

É no âmbito da medicina foniátrica que essas falhas  e distorções são melhores consideradas porque propicia a orientação e as condições metabólicas adequadas e necessárias para que melhor respondam às terapias que se fizerem necessárias de forma isolada ou combinada:  fonoaudilógica,  psicopedagógica, psicológica, de fisioterapia, de terapia ocupacional, entre outros.
A procura dessa ajuda deve-se dar no momento em que os padrões de comunicação e de comportamento da criança,  chamem a atenção pela sua inadequação e, de preferência, antes que evoluam para quadros mais complexos.

*Passagem de estímulo visual (letra)  para  auditivo (som), e vice-versa.