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DISTÚRBIOS DA COMUNICAÇÃO

DISTÚRBIO DA FALA

(A Articulação de Sons)

                                                      Evaldo José Bizachi Rodrigues

Igualmente desastrosas são duas situações:
a providência certa na hora errada;
a providência errada na hora certa.”

A fala é o resultado complexo da participação de várias estruturas com funções diferentes. Quando uma delas estiver alterada haverá comprometimento da fala, mesmo que as demais estruturas permaneçam íntegras. Como seus mecanismos de produção são pouco conhecidos pelos leigos, a fala, quando comprometida, torna-se alvo de práticas muitas vezes absurdas na tentativa de corrigi-la. A prática mais frequente  é a “briga com a boca da criança”. Os modelos corretos dos sons distorcidos são apresentados com muita ênfase, seguidos da ordem para que sejam repetidos.

Na realidade, qualquer som alterado significa que está ocorrendo alguma falha no complicadíssimo sistema envolvido nesse processo.

Para esclarecer melhor, vou usar um exemplo. Tomemos como comparação as medidas de temperatura de dois indivíduos. Ambos estão com 38 graus, portanto com febre; mas a febre dos dois pode ter sido causada por motivos diferentes, então há implicações que exigem procedimentos também diferentes. Ou ocorrer o contrário: os dois podem apresentar febre com temperaturas desiguais, por um mesmo motivo. Assim, como há casos de febre com temperaturas elevadas devido a uma simples gripe, há casos de febre com temperaturas pouco alteradas no decurso de doenças mais graves que a gripe. Com esse exemplo, quero dizer que o importante não é o resultado da medida de temperatura, mas o fato da temperatura estar alterada. Nenhuma família leva o filho a um pronto-socorro para tratar a pele quente, quando se sabe que a febre é apenas um sinal de uma causa maior.

Voltemos à fala. Já disse que ela é o resultado da participação de vários componentes. Do mesmo modo que no exemplo acima, também pode ocorrer de duas crianças não conseguirem produzir os mesmos sons, mas por causas diferentes, assim como pode acontecer de duas crianças não conseguirem produzir sons diferentes, embora pelo mesmo motivo. Há crianças que omitem ou trocam muitos sons da fala por motivos relativamente simples, da mesma forma que há outras que apresentam trocas discretas por motivos sérios. Ou seja: como no exemplo das diferenças de temperatura, o importante não é o som ou os sons omitidos ou trocados, mas o fato de acontecer a distorção. Significa que há “algo de errado” por trás, e que um ou mais componentes do complicadíssimo mecanismo da produção de sons não estão funcionando bem. Geralmente os pais de uma criança com distúrbio da fala demoram muito a procurar ajuda de um especialista. O senso comum os leva a achar que a criança “pode” falar certo, mas que fala errado só para irritar ou porque não se esforça, porque tem preguiça, porque é mimada, porque quer fazer graça, chamar a atenção, etc. Não raro há quem recorra à pressão exagerada para que a criança “fale certo”. Isso acontece, porque sons produzidos isoladamente podem aparecer da maneira correta, mas, em seguida, quando têm de ser articulados em sequência na fala fluente, surgem distorcidos ou omitidos. Uma coisa é o som isolado; outra, completamente diferente, é o som associado  a outros, numa fluência.  É mais ou menos o que acontece com quem está aprendendo a ler as notas musicais. Para quem nunca estudou música, em meia hora é possível aprender a nomeá-las isoladamente, mas será impossível identificá-las numa partitura musical.

Obrigar a criança a repetir os sons corretamente, sem orientação profissional, apenas a assusta e constrange. O comprometimento da fala, por si só, já a coloca em situação difícil. Assim, pressionar, coagir a “falar certo”, só piora sua autoimagem pela conscientização da dificuldade. O importante é que a criança seja levada o mais cedo possível para orientação e tratamento pela medicina foniátrica  que, atualmente, apresenta avanços significativos.  Essa conduta oportuna permite maior rapidez e eficiência do tratamento fonoaudiológico e de ações complementares, porque melhora a condição de resposta e da capacidade de interação da criança.

Orientação e tratamento nessa esfera são importantes, porque os mecanismos que garantem a fala são os mesmos que, entre outros, mais tarde terão sua eficiência exigida nos processos de aquisição e de automatização da leitura e da escrita (a alfabetização).

Apesar do distúrbio da fala (da articulação de sons) ser o aspecto que mais chama a atenção, nem sempre é o único, ou o mais importante, nos quadros clínicos que envolvem a comunicação e que interferem na socialização e na adaptação da criança.